segunda-feira, 12 de outubro de 2015

declaro

Não queria falar de mim, juro. Mas quando percebi as palavras já tinha saltado irremediavelmente do meu dedo para a tela. Não ria de mim, prometa. É que estou só e faz algum tempo que notei essa ausência. Não a sua, evidente. Não quero cobrar nada, de você jamais. Só que... Deixe quieto. Melhor silenciar não é? Afinal, já faz tanto...

É que olhei o calendário e vi que aqui marca um ano, vai marcar, ainda há um certo ar de futuro, de antecipação, na contagem. Sim, sei, sou ansiosa, sabemos disso. Mas a verdade, sempre tem uma verdade, é que eu não consigo não pensar, não sentir e nem sei o que diabos ei de sentir.

A síndrome se chama poetizar, já li a respeito. Os sintomas? A saudade desmedida, o amor incompreendido, não realizado e a ausência. Junta tudo, bate por três minutos, reserve na geladeira... Ah não, isso já é a receita de como fazer uma canção desafinada. Desculpa. Não era a intenção antecipar... Quer dizer, sou ansiosa lembra. Acabei misturando tudo.

A receita desandou, o remédio acabou. As rimas se foram todas pelo ralo e o que sobrou persiste.

Eu quero dizer que sinto terrivelmente sua falta, mas não farei nada para resolver a questão. Acho que o terrível soou meio exagerado, mas o que é o amor se não um certo exagero.

Ah, pois bem, estamos falando de amor. Estranho, falta algum encaixe no adjetivo, alguma conexão com a realidade. Como amor? Se falta tempo, presença...Fácil gostar assim.

É, seu sei. Não me julgue. Vamos admitir, vivo disso, da instantaneidade de sentir, pisco para o pôr do sol e bum, apaixono. Esqueço, e você também, na lua seguinte. Pois há de se demorar para usar algo como amor. Ainda acho que falta encaixe. Não encontrei expressão melhor. Não quero me desculpar, de novo não. Sempre desculpas, insinceras, quase sempre. Esperando, impacientemente, que você só não perceba as confusões, ou perceba, e me abrace forte, como quando nos encontramos. Olhe bem para o calendário. Talvez... Quem sabe... Ninguém.

Você está aí e lá, bem no alto. Sei que vai mais além. Sei sim. Se de poucas coisas, então, de novo, me deixe. Você vai.

E eu também. Gosto de voar, com asas e sem elas. Sabe que o meu destino é infinito.

Dizem que as paralelas...Bem, dizem tanta coisa. E eu já coloquei mais reticências que já me esqueci.
 
Dói e faz falta, era isso afinal.. O meu desejo é um pouco surdo e está ficando mudo. Logo será silêncio. Para isso, porém, não tenho pressa. Deixe, deixemos.

Ah de passar e se persistir..
.
As palavras, irremediáveis, a tela e qualquer inspiração devem resolver.


Se não, uma flor. Ou várias. Como as que você jura ter visto. Em mim. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

desenvolvimento

No tempo em que meu silêncio não for mais constrangedor para você
saberá que somos íntimos
e essa coisa nova não o assustará.

Prometo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Narrativa de uma cachorrinha

Por Ana Luiza Rigueto


Lembro-me com certa vagueza, uma memória afixada pelo olfato em minhas sinapses caninas, que sou filha de uma cachorrinha andarilha. Vim de uma ninhada de quatro, todos cachorrinhos malhados. Recordo-me do calor da barriga de mamãe, calor macio em meio de meus irmãos. Calor que assemelha-se a quando me refestelo em almofadas moles depois de algum tempo, quando estão aquecidas.

Enfim, lembro-me disto, nós todos unidos, um. Vieram, então, mãos do destino, apanharam um, outro, depois eu e o último. Nossos olhinhos mal enxergavam, nos colocaram numa superfície lisa e fria, ladeada por paredes iguais ao chão - mais tarde soube, era caixa de papelão. Ajuntamo-nos todos, sem mamãe, e o calor se refez, mesmo arrefecido. Adormeci. Acordei com outras mãos levando meus irmãos. Dessa vez quando me levantaram não restava mais nenhum outro.

Me acolheram, depois aprendi, em braços humanos. E eu, tão só, adormeci. Abri os olhos e não vi mais meus companheiros de ninhada. Aos poucos soube que o amor que meus humanos dão é bom, apesar de o corpo deles não ser tão macio. Aprendi amá-los de volta bem rapidinho. Somos alegres juntos, é bom estar junto. De início senti muito a falta de mamãe e dos três cachorrinhos. Depois aceitei que não mais os veria.

Hoje me veio essa memória. Culpa de um encontro fortuito. Eu nunca estive tão alegre e tão triste.

Estava passeando com meu humano, farejando e escutando cheiros e barulhos longínquos. De repente um odor irrompeu em minhas narinas e de súbito me recordei do primeiro dia em que o havia sentido. Saí em disparada. Mamãe sentada numa esquina, com uma coleira cor de rosa o pescoço e pendendo solta. Já me esperava, tinha o focinho farejando em minha direção.

Fui ter com ela. Cheiramo-nos com alegria incontida, os rabos espanando na velocidade da luz. Mais tarde soube que me lancei tão de súbito que meu humano não teve como manter a coleira segura nas mãos, estive livre. Cheirando mamãe, soube de toda a sua história, compreendi, era triste.  Gemi baixinho, uivei alto. De mamãe, só escutei um grunhido, mais como um choro contido.

Logo chegou meu humano, olhou curioso a cena – eu e ela temos as mesmas orelhas malhadas de ruivo e branco. Mamãe lambia melancólica a minha orelha. E eu recebia aquele carinho que era despedida.

Cheguei em casa, todas as coisas estavam tristes, desabei. Passaram-se dias, nenhum estímulo me movia. Meus humanos vinham até mim, afagavam meus pelos, falavam tons de dúvida e consolo, se iam. Duas vezes me levantei para beber água, duas vezes fiz xixi. Meus humanos perece que compreenderam. Depois soube que fiquei assim três dias inteiros.

No quarto dia, espreguicei-me e espantei o desânimo com um bocejo. Comi, bebi água, fiz cocô, fui espreitar a movimentação pela janela. Eu já me esquecera o enredo da triste história que soube de mamãe. Não porque quisesse: é da natureza dos cachorros digerir. Mas guardei comigo umas coisas que conheci daquela que me pariu.

O que meus humanos chamam de “cachorro de rua”, aprendi que para mamãe é ser andarilha. Alguma coisa no cheiro dela não é a mesma, deve ser porque tiraram-lhe a parte de dentro de fêmea. Sei que houve uma fuga. E depois da ninhada em que vim, houve pelo menos outra. Não lembro a ordem das coisas. Não importa. 

Passando hoje de novo naquela esquina, senti límpido o cheiro de mamãe. Aí lembrei-me do aconchego primeiro que conheci ficando, da caixa, dos meus irmãos, tudo ficando para trás. Uma lembrança, não houve tristeza ou lamento. Uma lembrança. As vezes um cheiro me faz lembrar mamãe. Se um dia eu a encontrar de novo, penso que vou sentir a mesma alegria.







terça-feira, 21 de abril de 2015

Tarde fresca, tomates frescos

Por Ana Luiza Rigueto

É fim de tarde fresca. O dia amaina o ânimo rasteiro dos homens, cada qual caminha entre pensamentos desapercebidos e se refestela no azul. O mesmo corpo que contém olhos lançados ao céu, também é o que pisa, ruminante, com pés em cimento áspero.

Pela calçada estreita vem mulher de cachos na altura dos ombros, castanhos. Ela pisa, pé ante pé, pendendo para a direita e recuperando o eixo vertical. Pisa, ameaça, e volta. De nascença veio-lhe a perna direita um tanto de nada mais curta.

Seria mesmo coincidência, se de coincidências fôssemos, agora reparar que em sua direção vem vindo homem uns quinze anos mais velho, e mais manco também – não de nascença, foi acidente. Os dois reparam no elo comum que os caracteriza. A mulher se consola, gabando-se para si de que manca um pouco menos. O homem se põe em melhor estima franzindo mais o cenho e erguendo levemente os ombros para mostrar que, na verdade, não pode ser comparado àquela mulher por ser coxo, já que, pelo porte, é um tanto mais altivo.

De outra calçada, jovem aloirada nota duas pessoas mancas se cruzarem logo adiante, mas que o homem, além de bastante grisalho, é também bastante mais manco que a mulher. Logo esquece. Vira a esquina e avista, a uns dez metros, sua avó com sacolas de mercado dos dois lados do corpo em mãos enrugadas. A velha anda devagar, as pernas bambeiam. Atrás dela, espanando os joelhos com mãos recentes e lisas, menino de cabelos negros em tigela, idade pra cá dos sete. Logo chega mulher de cabelos, também negros, presos em rabo de cavalo, os mesmos olhos. Apanha-o no colo e verifica seus joelhos, escoriados. O menino acabara de ter sua corrida interrompida por um tropeço, não chorou.

No prédio atrás deles, descendo as escadas da portaria, homem de meia idade leva no colo cachorro débil e ofegante, idade pra lá dos doze, preto e peludo, no fundo dos olhos, um espelho opaco e azul – enxergava pouco. Carro branco sai da garagem do prédio. Dele, mulher vestindo roupas macias de ficar em casa, abre a porta traseira do carro, espera o homem ajeitar o cachorro no banco e sentar-se junto. Entra rapidamente no carro e partem.

Já em casa, mulher de cachos castanhos assiste a seu programa de culinária preferido, tem fome e liga para o seu restaurante japonês delivery preferido. Atende senhor muito simpático que já reconhece sua voz no “alô”, logo a cumprimenta. Ele é manco, apesar de ao telefone não ser possível saber, e depois de dizer que o pedido chega em meia hora e desligar, reflete de novo se é melhor do que boa parte dos mancos que existem, e se alguém notara hoje mais cedo que ele é superior à mulher com quem cruzara. Esta, que não pensou mais no assunto, torce para que sua comida venha logo, e imagina que o senhor que atende as ligações no restaurante deva ser um velhinho de olhos puxados e sempre gentil.

A velhinha esqueceu de comprar tomates e volta ao mercado, contrariando a sugestão da neta de que é melhor evitar muito esforço, para não fazer aumentar a pressão. A jovem já está na clínica veterinária em que trabalha. Lá, todos estão espantados com o caso do cachorro preto que deu entrada no final da tarde: tem um tumor no coração, caso raríssimo.

Sentado à mesa, menino com joelho escoriado chora porque não quer comer tomate colocado em seu prato pela mãe. O telefone toca, ele pula da cadeira e vai atender. É para a mãe. A tia tal, aquela dos cachinhos castanhos, quer saber se por acaso querem adotar um cachorrinho, que uma amiga apanhou na rua e não pode ficar, é filhote ainda. Mãe e filho esquecem do tomate. Os tomates já estão na fruteira, finalmente não precisa de mais nada: a velha liga a TV, deita e dorme...




domingo, 14 de setembro de 2014

As plantas na janela são mais sinceras que o sofá

Por Ana Luiza Rigueto

Ninguém precisa de cigarros. Ou de doce de leite. Ou de segurar a faca com a mão direita à mesa. Muito menos de comer verdura com pesticida. Mas tudo isso acontece - fazendo mal ou não. Estou ouvindo música pop na TV. Preencho a página de entrelinhas e espero que algum ser humano compreenda.

De criança, cada um observa e, sorvendo simbolismos, é atraído e repelido: escolhe, sem perceber, o adulto que será.

Fico tentando entender o que não é aparência nesse mundo. Ou, nessa partícula cultural em que nasci, e que, as vezes, parece ser o próprio mundo e me absorve. A música pop me atrai e repele, mas não cesso de ouvi-la: movimento que leva à exaustão.

Hora ou outra não há refúgio. Vez ou outra essa estafa me vem, implacável. Então é isto? Estamos todos condenados a escolher no catálogo? Os sentimentos já visitados, as facetas já gastas, as mesmas angústias. Meu Deus, é tudo ciclo, é tudo instrumento e composição: as palavras, as tintas, os papéis, os objetos e os seres. Então é isso? O gosto por este ou aquele, e viver sob esses contornos?

O nome das coisas das quais se aproxima dizem de você.  O vento é o vento e entra pela janela. A imagem que suscito ao dizê-lo: a natureza invade, calma; a fluidez do que não é construção (exceto por ter recebido nome) transcende por entre as linhas retas, quadrangulares, do homem. Ou ainda: o vento areja. Vindo de não sei onde, entra nesse cubículo predial. Passa pelas plantas da janela, bate nos móveis, nas paredes, passa por mim. Quero comunicá-lo para arejar a minha escrita.

A música pop faz cócegas nas minhas sensações.

Quem tem boca fala o que quer. Quem tem mão e os demais instrumentos escreve. Os meios de comunicação propagam. “O mundo é seu”, diz a voz da clichê, digo TV. Sentamos e assistimos.  A música pop tolhe com cores, vozes e corpos agudos. Não conduz, só aponta e espera que se olhe para o ponta de seu dedo. E, por algum tempo, obedeço.

A música pop me deprime. Depois, só me enche a paciência mesmo. Desligo a televisão.

Que é o amor senão o fundamento das coisas? De outro modo, restariam apenas estereótipos e instituições. (E a distração aborrecida da música pop.) Liberdade não é tudo: é inútil sem bons motivos, finalidades ou estímulos. Esses dias li que a liberdade está na ausência de finalidade. Também concordei.

As plantas na janela são mais sinceras que o sofá, a janela e eu. Elas só se estabelecem onde podem existir: saudáveis, vivas, brilhantes. Eu e o sofá sobrevivemos, exaustos, insinceros. Entrego-me a observação das plantas na janela. Faço parte dessa composição em que cada objeto tem sua função.


A beleza atrai. As plantas verdinhas na janela, e a oportunidade de resgatar as emurchecidas, que anunciam queda. Ter fome e comer é tão sincero. Há um fio que se costura nessas entrelinhas. Não nomeio, mas o reconheço. Viço, amor, liberdade – ser um pouco herói na vida. 




domingo, 27 de abril de 2014

De juventude

Por Ana Luiza Rigueto

Sem nenhum estrondo levava a vida. Entre um sentimento e outro, esperava a vida. Na falta de algo melhor, trazia a vida. Com gestos suaves dos dedos, orquestrava a vida. Essa folha ao vento, esse vento, esse asfalto. O dia nublado, o céu ensolarado, as nuvens, a vida. Ser jovem é fácil, a promessa basta. Que nada se realize ainda, basta que haja promessa. Amigos sorrindo, encontros casuais, beleza, a pele lisa, os cabelos bastos, a tatuagem ou não. A juventude encerra em si o que existe de aprazível e conhecido. Ser jovem é bom, e ainda há o amor crédulo. É claro, o amor! Que mais senão ele? Ser jovem e amar é tudo, esse turbilhão, essa importância, esse egoísmo. Nada mais existe no mundo.

Ser jovem não vale de nada. Tolices. Que é um jovem senão um tolo? Os trejeitos de infância ainda, mas dissolvidos, o conhecimento fragmentado de mundo, a arrogância que de tão imanente é absolvida. O amor um dia acaba. Ser jovem não é nada. Que preguiça da juventude, essa ânsia, essa urgência. Melhor sentar e esperar chegar aos 40, aos 60, 70.

Aaaai, aaaai...

A vida ao vento, a vida o vento. Voa, vida, voa, passarinho. Sem nenhum estrondo, bate as asas, levanta voo. Plainando, plainando, até aterrissar. A recém-vida esvoaça, revoa até acalmar. O que faz mover, o que faz andar, é promessa, amor ou os dois. O resto é circo, novela e farsa. O resto é espetáculo pra distrair dos espaçamentos.

O amor rodopia por entre as perfumosas flores. Vai doer, vai doer. As asas agora são de abelha. Vem vindo, vai doer. Vai indo, já doeu. O amor dói mais que picada de abelha na sola do pé. A promessa é sempre um afago, até que se consuma e fim. O amor, entre asinhas abelhais, zunindo. A abelha quando pica logo em seguida morre. Por que tem que acabar? Tudo passa, todo estrondo. Meu Deus. Agora ficou tudo do avesso. Eu nunca soube que estaria do lado de cá. Eu não sei como é estar do lado de cá. É tudo mentira aquilo o que dizem. Sempre desconfiei: é maior quem ama mais.


Era desses que sem nenhum estrondo levava a vida. Porque não alardeasse, porque as vezes até se encolhesse um pouco para não esbanjar a musculatura dos braços, a envergadura do corpo, o vigor das mãos, a precisão do movimento das pernas, a altivez dos olhos vivos e a certeza simples, atraía mais do que desejava. A juventude delicada, gentil. Quem seria dali a uns anos? Que roupas usaria? Como lhe tratariam? Que pessoas ainda teria? Quem mais? Como lhe pareceria a superfície dos dias? Agora era sempre bom, por mais que... Era sempre bom. O dia nublado, o céu ensolarado, as nuvens, a vida. A promessa bastava.





"Meu Deus! Um momento inteiro de jubilo! Não será isso o suficiente para uma vida inteira?..."




sábado, 15 de fevereiro de 2014

A tática da resposta

Por Analice Paron


Pois bem. Já devo ter começado alguns vários vinte textos para tentar falar. Tentar dizer. E todos eles não passam de tentativas. 
O que fazer, afinal? A vontade maior, eu ignoro. É sair rabiscando todos os muros com todas as frases melosas do poemas que nós conhecemos. 
Mas como diria o poeta, a gente sabe que todas as linhas que falam disso são um pouco ridículas. 
Talvez eu tenha entendido o motivo. 
É que ficamos querendo dizer nas entrelinhas o óbvio ululante. 
Patético. 

Então eu desisti. Simples assim. 
Deixei de esperar as palavras virem, hoje pensei que podia correr em busca delas. Os conectivos são bem rápidos, mas as vírgulas, essas são muito mais velozes. 
Puro exercício poético. 
Minha gana de recuperar... como é mesmo? Ah, sim, o tal do lirismo perdido. 

Confesso, isso não saiu mais da minha cabeça. Virou minha pauta. Minha revolta. 
Por isso esse texto! Para lhe dizer, sim para você mesmo, estou à procura. Não vou deixar ele se perder por completo. 
Ainda que no silêncio, as vezes, parece que sou capaz de enxerga-lo. Juro. 
Mas depois, um barulhinho qualquer e ele se vai. E você também. 

Aquela história de passarinho no ninho.... acho que foi a última coisa realmente bela que escrevi. E não foi para dizer nada em especial. Apenas para... suspirar. 

Essas linhas também são para isso. Um respiro. Um alento. Uma conspiração contra o tempo. Engano a espera pelo lirismo debatendo sobre a ausência do mesmo. Sobre a sua ausência. 

A que conclusão eu chego? Que não engano ninguém. Nós dois sabemos que é tudo uma questão de ponto de vista, que ele ainda está por aí. Talvez perdido, talvez distante. 

Sei que ele não está com você. Sei que tudo parece pedante. Sei que frases curtas são o mais puro tom jornalístico. Sei que você se pergunta o por quê disso tudo. E eu me pergunto para onde vai tudo isso. 

A resposta, eu não sei. Mas, assim como o lirismo, vai aparecer, quando menos esperar. 
Até lá, ficamos assim: eu procuro, o lirismo aparece e você se esconde. 




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Concha

Por Ana Luiza Rigueto

Depois de muito tempo condensando, condensando, condensando, parece que a ideia do segredo perde alguma coisa da urgência de ser segredo. Perde um pouco do etéreo, da dívida consigo mesmo de manter-se a salvo. Depois de algum tempo – o que for suficiente, o segredo parece tão palpável que assemelha-se a uma esfera maciça, tangível e lustrosa. Ao tomá-lo na palma da mão, pode-se pensar até que ele, o segredo, dissociou-se de seu dono, que pensa: “isto não é mais meu, é só uma coisa que levo, uma coisa sólida, uma coisa estabilizada. Já aceito tanto essa coisa, que nada que vier dela me afetará. Quero que alguém mais tome conhecimento disso”. Pensando assim, com a esfera maciça na mão, o dono do segredo, que não é mais segredo, é só um objeto levado, estende a mão a alguém próximo de si, que olha e não entende. Daí o tal dono assente com a cabeça, como quem diz “pega”, e o outro apara a mão pra receber a esfera-segredo. “Era isso que eu levava esse tempo todo. Agora é seu também, se não se importa. Se se importa, não tem problema. Não me importo por nós dois.”

No final das contas, não importa. Nada importa tanto. No final das contas, tanto faz. “Toma, pode ficar”. Era só um anel, era só um texto, era só uma sombra, era só a juventude, era só um medo passageiro. No final das contas, era só uma vontade de sentir medo pra preencher a vida. Um medo tão grande de sucumbir ao nada, que nossas vidas pareciam engajadas por um motivo – todos juntos, temíamos e nos sentíamos confortados pelo temor do outro. No final das contas, a esfera vira uma pluma, ou uma pedrinha transparente, ou uma concha. Tanto faz.

No final das contas, aquela viagem nunca sai e nossas vidas mudam mesmo assim. Ou sai e nos muda ou não. No final das contas estamos em cima de um camelo no meio do deserto nos sentindo saudosos da época em que sentávamos no meio-fio depois da última aula. No final das contas, quem escolhemos nos escolhe também, sem aviso prévio. E o resto perde um pouco da importância e da urgência  – a única urgência passa a ser uma tal casa avarandada... Já houve urgência? Já. E ainda haverá. Mas, justamente agora, tanto faz.

“Assim num dia de verão as ondas se ajuntam, se avolumam e caem; se ajuntam e caem; e o mundo inteiro parece dizer “é só isso” em tom mais e mais pesado, até que o coração dentro do corpo deitado ao sol na praia diz também, é só isso. Não temas mais, diz o coração. Não temas mais, diz o coração, entregando seu fardo a algum mar, que suspira coletivamente por todas as dores, e se renova, começa, se ajunta, deixa cair. E apenas o corpo ouve a abelha passando; a onda quebrando; o cão latindo, muito longe latindo latindo.”
             

                                 



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Contraproducente

Por Analice Paron


Seria equivocado eu afirmar algum tipo de certeza baseada em impressões de um instante qualquer que passou. Tudo não passa de lembrança. Um carimbo frouxo daquele breve ensejo. Seria perigoso colocar alguma fé em vestígios parcos de um pensamento distante mas que volta e meia se manifesta. 
Seria estranho acreditar que a constância do retorno de qualquer ideia ligada ao já supracitado fato tem algum motivo específico para tamanha insistência. 
Seria... 
Tantas outras questões se tornariam pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito sem nunca terem sido alvo do fabuloso mundo da contestação.
E teriam sido deixadas lá - todas as questões - em processo abortivo, se não fosse a mania da desobediência cognitiva. 
Uma insurreição de princípios de orações e fragmentos de frases. Aglutinados em poderoso seres pensantes: ideias fixas. 
Me surpreendo colocando com tamanha voracidade e veemência esses traços dançantes no papel (ou esses toques insistentes na tela no notebook). Registrar esse processo do qual sou autora e vítima é uma experiência nova. Ao menos nunca tinha organizado os termos dessa maneira. 
Não pretendo, através desse texto, declarar nada. Muito menos pedir algo, a sua atenção já estava incluída na proposta. Talvez essas linhas sejam apenas um jeito de melhorar a celeuma em que as tais ideias fixas se encontram. Por conseguinte, eu me encontro. Talvez, por meio desta, fique comprovada minha necessidade quase patológica de ser egocêntrica. Deveria procurar ajuda especializada. Ou não. 
Sem tantas delongas, não tanto quanto seja possível evitar, o primordial é discorrer sobre o papel do tempo  na minha (mais um traço patológico, anotado) percepção do mundo e dos encontros da vida.  
Como já dito, a partir de um novo prisma ótico é possível traçar um parâmetro entre os acontecimentos. 
Encontro, espera, desencontro. 
Acho que é preciso alterar a ordem: 
Desencontro, espera, encontro, desencontro, espera... tenho um palpite sobre o que vem em seguida. Se a vida fosse uma projeção aritmética ou geométrica uma fórmula resolveria todo o dilema. Mas não é, amém. Existem seres iluminados que acreditam piamente na regra de três para encerrar o caso. Não faço parte desse grupo, definitivamente. 
A dúvida permanece e assim será. 
O que vejo de forma nítida e clara é uma grande árvore de caminhos quase incontáveis se abrindo a cada instante. O que fazer se não explorar incansavelmente a pluralidade de mundos, aos poucos desvelados logo aí, bem à sua frente?
Os desencontros, encontros, esperas, seguidas de mais encontros e outros tantos desencontros, continuam em um ciclo absoluto. 
Quanto a mim, acredito que depois de um desencontro, uma espera, muitos encontros virão. 
Ficarei atenta às esquinas, às curvas, aos acenos nas janelas. 
Conquanto, o relógio não dará trégua e a vida seguirá sua dança cotidiana, as vezes intercalada por passos de uma valsa leve, outras vezes continuada a marcha de mil generais, custo a não desconfiar do imponderável. Ouso arriscar. 
Não existe momento certo ou errado para a casualidade do destino ou para a coincidência de um mapa astral. Existe a vontade universal das estrelas. 
Imagem de We Heart It
Não sei se um planeta em uma constelação pode ser considerado um fenômeno raro. Penso que não faz parte dos domínios do acaso. 
E essa certeza - afirmar tamanha convicção pode soar contraproducente, mas o que é a vida sem um pouco de risco, ainda mais risco poético - enfim, essa certeza me faz sorrir e é bom. 

Não foi, nem vai ser. É. 


                                                                                                                                   


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Livre para voar?

Por Analice Paron


O coração da gente deve ser igual a passarinho, deve precisar ficar dentro do ninho, é pequeno de mais
para voar. O coração da gente deve ser bem miudinho, feito uma semente de alguma flor que deu no mato.
Talvez esse texto pretenda ser romântico em algum sentido. Talvez não. Eu nunca sei o que esperar quando começo a escrever nessa página. Nunca sei muito bem o que esperar quando começo a escrever um texto mais "livre".

Acho que já estou começando a ficar habituada a urgência da pauta, a necessidade de uma temática, a precisão de uma orientação. Acho que isso não é bom. Realmente isso não me faz tão bem. Mas então o que fazer?

Já me fiz essa pergunta tantas vezes essa semana... acho (de novo) que essa é A pergunta do ano de 2013. E a resposta dela tem norteado quase todas as minhas decisões: eu não faço a menor ideia. Desde o nome desse blog até quando alguém me pergunta se eu gosto mais de torta de limão ou torta de maracujá. Pior que isso é quando esse mesmo alguém inclui nas possibilidades uma fatia caprichada de torta de chocolate. Não, aí é de mais.

Na maioria das vezes eu quero todas, um pouco de cada, para provar e depois decidir com mais certeza. Se bem que acho que o bom mesmo seria poder comer tudo de todas, mas aí provavelmente eu passaria mal. Ou não. Ou só engordaria. Ah, quem se importa?!

Mas na prática não estou falando de tortas - quem me dera. Na prática o problema é vital. É cotidiano. Tem a ver com tudo o que está acontecendo aqui e agora. Em uma coisa que as pessoas insistem em chamar de "minha vida".

Tá, ok, essa última frase ficou um pouco revoltada. O problema é que, talvez não seja um problema tão grande assim, mas a questão toda é que eu sinceramente não sei mais o que pensar sobre uma escolha profissional. Todo mundo diz (eu me inclui nesse grande grupo de pessoas) que é super normal não saber direito o que fazer da vida profissional, que é normal ter dúvidas e que não da para achar que você vai infartar de felicidade no seu ambiente de trabalho. "Sempre terão coisas chatas para fazer, pessoas insuportáveis para lidar e blá blá blá". É o que TODO mundo SEMPRE diz.

E eu me revolto quando ouço isso. Por que a gente tem que se conformar? As vezes parece que ser adulto é ter que se conformar! Eu não quero isso! Não quero acordar todos os dias e pensar "droga, tenho que trabalhar". Será que é pedir muito? Será que não posso almejar isso? E se eu quero isso, será que não posso pautar minhas escolhas pensando nisso? Então, afinal, eu fiz a escolha certa? Eu quero trabalhar com o que estou trabalhando? Quero acordar todos os dias e pensar em uma matéria, escrever um texto, postar em algum site, publicar em alguma revista, colocar no ar em algum canal. Será isso mesmo?
Será que está muito cedo para decidir? Muitos dirão que sim, acho que a maioria das pessoas mais velhas. Mas o tempo não esta passando diante dos meus olhos enquanto eu não posso fazer mais nada exceto torcer para continuar respirando?
Aí vem algum cidadão e me diz que eu tenho que correr para me formar, correr para trabalhar, correr para tentar AQUELA vaga imperdível naquele canal dos sonhos...

Não quero correr. Quero? Alguém quer? Alguém tem um plano milimetricamente traçado e que está seguindo direitinho? Existe uma fórmula?

No fim das contas eu já pensei isso tudo e já esbravejei sobre todos esses questionamentos, mas eles simplesmente não param de me atormentar. Não sei até que ponto isso é saudável. E não sei se valem a pena. Droga, mais um "não sei". Vou fazer um exercício e tentar falar menos "não sei". "Acho", "talvez", "meio que sim", deveria tentar excluir todas essas expressões.

Será mesmo?
Relativizar é uma boa forma de pensar mais a respeito. Acho que não quero mais pensar, talvez seja melhor ficar quietinha, meio que esperando, ou só respirando.

Deixar a vida tomar as rédeas da situação e eu ir nadando com a maré... Um plano muito tentador. Mas não o que eu escolho. Essa certeza eu tenho.

Mas e aí? Escrevi, escrevi e não cheguei a lugar algum. De repente o texto ficou um bocado repetitivo. A melhor solução é colocar a cara no travesseiro e gritar, tomar um banho gelado, dar um mergulho no mar.

Voltar a pensar no passarinho, pequenininho, aquele que deveria sair do ninho e voar por outras paragens.

Dizem que um coração ousado vai mas longe. Será?



domingo, 1 de setembro de 2013

Settembre

Por Ana Luiza Rigueto

Setembro chegou. Não vou perder meu tempo dizendo que foi rápido, que eu nem vi o tempo, que daqui a pouco é Natal, que já daqui a pouco faço outro aniversário. Deixemos isso pra uma hora mais entediante. Nem vou dizer que não faço a menor ideia do que eu esteja fazendo, ou vá fazer, com a minha vida. Isso é tudo meio entediante.

O que tenho para dizer é que outro dia abri minha água com gás especial, a San Pellegrino, uma água italiana antiga, tradicional. Também soa bastante entediante. Mas o fato é esse mesmo. Bem, em primeira pessoa está tão banal quanto eu previa. Deixa ver se assim vai:

A água com gás italiana estava guardada há uns meses, a espera de uma refeição à altura para poder ser aberta. Não se via aquela água em qualquer supermercado, então não poderia desperdiçar com uma comida banal – gostava muito de comer, gostava mesmo. Mas a água estava guardada há tanto tempo, talvez fosse melhor bebê-la logo. Então, vou abrir, Ana pensou. É melhor beber logo, mesmo que seja com esses pastéis, e são pastéis gostosos, então está bem.
Minerale naturale, capito?

Ana colocou os pastéis no prato, foi até a geladeira e pegou a garrafinha de vidro verde transparente. Abriu. Bebeu. Um, dois goles. Estava praticamente sem gás algum. Afastou a San Pellegrino do rosto, examinou para ver se as borbulhinhas estavam subindo e quase borbulhinha nenhuma subia. Sem gás, lamentou. Não podia reparar o fato de não tê-la consumido antes, enquanto ainda estava boa e fresca.

Bebia um gole da água. Mordia um pedaço de pastel. Mastigava. Enquanto mastigava, pensava, parece que influenciada por algum acontecimento anterior, já que mastigar pastéis e beber água com pouco gás, genuinamente, não justificam tais divagações. Essa minha mania de deixar o que julgo ser muito especial para um momento perfeito, pensou. E a San Pellegrino já sem gás, sem graça, ali à mesa.

Comeu os pastéis, gostosos. Bebeu a água até a metade, a outra metade jogou fora, já não estava boa. Essa mania que tenho de deixar o que julgo muito especial pra um momento perfeito. Guardei essa água tanto... O fato é que Ana já não pensava na água. A água encontraria outra vez, n’outro supermercado. Ana tinha em seus pensamentos alguma outra questão, outro episódio, alguém, uma coisa, sabe-se lá.

“E quando finalmente vou desfrutar dos goles que tanto esperei, e até prendo o fôlego, porque estou crendo que serão inesquecivelmente marcantes, acabo por pensar: cadê o gás?” Não era mais da água. Pode-se arriscar que se tratava do tipo de coisa que guarda em si alguma potência. Essas coisas que devem ser desfrutadas, compartilhadas, tocadas, expostas, sentidas enquanto ainda borbulham, enquanto ainda tem bolhas querendo subir pela extensão da garrafa.

Tão voláteis, Ana concluiu. E eu ainda tento protelar, deixar pra depois, numa garrafinha de vidro verde transparente para um jantar especial. É que Ana tentava fazer da potência promessa. Se fica guardado por muito tempo, intocado, parecendo que precisa esperar, esperar, esperar... Uma hora pode perder a força, Ana raciocinava, absorta, esquecida da San Pellegrino.

Levantou-se, saiu da cozinha, foi para o quarto. Ligou seu computador e pensou. Escreveu, escreveu, tentou relatar um pouco para não se esquecer. E por último digitou assim, algo que não levava aspas porque era seu:

Que eu beba a água com o máximo de gás – o momento especial estará, precisamente, nisto.




sexta-feira, 12 de julho de 2013

Epifania do período

Por Analice Paron


Eu tô aqui, quase clandestinamente. Sem saber muito bem o que fazer mas com uma vontade louca de compartilhar. Não sei se é certo querer compartilhar o que eu tanto quero, deve ser uma característica da minha geração...
É que de repente senti uma vontade imensa de ser feliz
de cantar
de dançar
de correr
de gritar bem alto que tudo realmente, em algum momento, vai ficar bem
em algum milésimo de segundo o coração aquieta e dá pra respirar sem a sensação de que o ar está fugindo dos pulmões.
É quase uma epifania
um momento no qual tudo parece estar fazendo sentido. TUDO, absolutamente tudo.
Dá para se sentir bem até com a espinha que resolveu nascer na ponta do nariz, afinal, se olhar rápido ela parece uma pinta charmosa.
                              Hoje, agora, nesse instante o universo aparenta estar funcionando e a minha vontade é de sorrir porque o mundo continua em sua excêntrica órbita.


                                                                    de repente.


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Isso deve ser um dia de entrega de trabalho no final do período. Segunda-feira irei abraçar estranhos na rua, provavelmente.




                                                                                                                           

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Pela rua povoada

Por Ana Luiza Rigueto

Esqueço tudo que lembrar devia, porque te li e lembro esta leitura. Na verdade, isto são versos de um dos meus poemas preferidos. Queria muito tê-los escrito eu mesma. Talvez os tenha posto logo ali para, por um instante, eles serem meus, meus, meus. Desde uns dias que eu tô quicando por dentro. Uma ameaça de ebulição que não evolui. Pareço prestes a ter ímpetos criativos, e nada. Deve ser porque esqueço tudo que lembrar devia.

Achei graça de lançar um blog sob certo ar de coisa oficial, que após alguma preparação vem a público. Deu até um nervosinho na gente. Amigos falando que gostaram, conhecidos aprovando. Foi engraçado. Só um blog, eu sei, mas foi engraçado.

Tão alva essa riqueza a espojar-se nos circos sem perda ou corrupção. Outros versos de um de meus poemas preferidos. Outro dia pensando neles eu entendi alguma coisa, apreendi mesmo. Não sei se sou capaz de transcrever o que foi, mas foi luminoso – alvo e rico.

“Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.”

Vai o meu elefante, pela rua povoada

Como se uma riqueza tão plena e sincera tivesse sido alcançada e, assistida de perto e por muitos, fosse submetida ao desgaste, e se misturasse, e convivesse, e se expusesse sem se perder ou sentir-se espoliada. Uma coisa naturalmente corajosa e disposta. Talvez eu esteja descrevendo alguém, não sei, talvez eu tenha personificado a riqueza. Consigo imaginar um sorriso tão bonito que reja todas as situações, e mova o mundo, porque não se abala. Porque esse sorriso, apesar de toda a fraude, consegue ser.
 
Espero poder ser com essa riqueza. E exprimir como seu eu tivesse sorrindo esse riso forte. E espojar-me sem perda ou corrupção.


                                                 

sábado, 25 de maio de 2013

O silêncio que precede o esporro

Por Analice Paron


"Quem cala consente".

Ta aí uma frase que a gente fala e ouve sem pensar tanto sobre a questão toda que está em jogo. Isso é um perigo.
Mas falar o tempo todo, questionar e contestar a todo instante não é no mínimo inconveniente?

Ok, cada situação pede uma postura. Só que as vezes tenho a impressão que apesar do mundo poder gritar mais (lembra do grito no vazio da web... então) as pessoas acabam ficando mais "ovelhinhas" para algumas coisas.

Por exemplo, questionar uma voz de autoridade. Professor, economista, jornalista, a capa da Veja. São algumas das figuras que raramente alguém aponta o dedo e diz "não, eu não concordo". Eu estou ignorando todos os casos de alunos que confrontam professor, ameaçam de morte e furam o pneu do carro. A minha realidade é um pouco diferente. Eu convivo com professores universitários bastante renomados. Não estou fazendo desse texto um panfleto confessional de crítica em relação aos meus mestres. De forma alguma. JURO!

A questão é outra. A questão é sobre formação crítica, verdadeiramente critica. Como não virar a Hermione  e não parar de mostrar que sabe e que também pode falar sobre determinado assunto. E por outro lado, não se comportar como receptores momentaneamente passivos.

Focando na relação aluno-professor, pensando em um cenário bem demarcado: uma Universidade bem colocada, uma aula na área de humanas com a proposta de aprender a colocar ideias em forma de notícia. O tema é uma discussão sobre a cobertura da mídia da bomba que explodiu em Boston, nos Estados Unidos. Alunos perguntam sobre como proceder, como escapar dos clichês informacionais, como fugir da fonte oficial. O professor responde criticando os jornalistas em atividade - e também o sistema que fabrica as notícias.

Em que lugar pretendo chegar com isso? É que de um modo ou de outro a crítica era para a nossa formação - alunos que estudam para serem os futuros profissionais que estarão na cobertura de um fato como esse. E como escapar de toda a confusão? A resposta parece surgir: tendo pensamento crítico.

béééh 
Essa volta toda leva ao começo da confusão toda: como ter pensamento crítico sem questionar a torto e a direito? Qual o limite entre a inconveniência e a inteligência? Acho que essa pergunta perturba não só a jornalistas como também a outras profissões. Confesso que isso me perturba enquanto pseudo adulta, me pergunto qual tipo de gente grande quero ser...

Sobre o limite, semanas atrás eu e Ana ouvimos uma coisa muito legal: se não tiver limite não terá muro pra pular. De um jeito bem estranho isso parece casar com o dilema do pensamento crítico. Talvez para ser alguém que pensa e que sabe demonstrar que pensa, a gente tenha que pular o muro da recepção padrão o tempo todo. Tenha que transpor o comportamento esperado para aquela situação. Talvez seja assim o melhor jeito de aprender.

Acho - e mais uma vez vou reforçar o quão opinativo é esse texto e esse blog, não sou dona de verdade alguma - que para ser alguém diferente hora ou outra a gente vai ter que expor nossas ideias e o que pensamos sobre tudo o que falam, escrevem, mostram pra gente. O nosso muro pode estar ai. Pulá-lo pode não mudar em nada a situação. Mas pode fazer a gente crescer um bocado. Pensar um pouco maior.

Ao menos a gente terá gritado e alguém poderá ter ouvido.


Achei que essa música fosse do álbum da referência do título mas não. Mas é uma música legal.

"Quando estivermos na frente do reto
  Fica esperto
  Calado e quieto"






quinta-feira, 23 de maio de 2013

É isso ai

Não, não é uma invasão, um hacker, um marciano atacando o blog da Ana. Não. É mais uma Ana, cheia de confusões, dúvidas e todas as apresentações clichês que envolvem pessoas com alguma perturbação psicológica. Eu tava com alguma coisa muito genial pra próxima frase mas esqueci!
Enfim (um dos meus vícios de linguagem favoritos e super usados por pessoas acadêmicas, é requinte) além de eu ter esquecido a frase genial eu ainda fui sacaneada pela tecnologia. Escrevi uma batalhão de texto, terminei a 1:30 da manhã e ai ai internet caiu. Só que o blogspot só salvou o primeiro parágrafo.
Juro que era alguma coisa maneira. Não estou reclamando gratuitamente. Mas vamos dizer que minha estreia foi um tanto quanto problemática.

Talvez seja por isso que eu estou aqui afinal. Pra gritar sobre problemas, ou gritar sobre soluções, ou só gritar e gritar. Depois ficar quieta. No texto original rolava uma reflexão sobre a internet como possibilidade de megafone. A gente fala sobre o que quer falar, o que precisa falar o que é necessário falar... mas quem lê? Quem ta ai do outro lado? Será homem, mulher? Ta triste? Ta feliz? Será que esta comendo? Porque cargas d´água resolveu parar e ler isso? Achou o blog por acaso e resolveu ver do que se tratava? Será que tem alguém aí? Mas precisa ter alguém  aí? A gente ta gritando pro vazio sem lei, fonteira e real que é a internet. O nosso grito faz diferença? O que dá pra fazer com um grito desse?

Será que posso mudar alguma coisa? Escrever, pensar e provocar discussão sobre algum tema não é despertar a atenção para ele? Só isso já faz diferença. Será? Gosto de acreditar que sim.

Então aqui vai ser um terreno pra falar sobre as grandes inquietações da contemporaneidade? Provavelmente não. Acho que nenhuma de nós duas ou das pessoas com as quais a gente convive sabe muito bem usar um ábaco ou passar uma camisa social, imagino que resolver as grandes dores do mundo seja algo um pouco mais complexo.

De qualquer forma é um espaço pra alguma coisa e eu to aqui por algum motivo. (Quem eu sou? Porque estou aqui? Pra onde eu vou? Pera.. essa crise já deu, eu acho.) Pode ser porque sou meio "assim" e o blog é meio "assim". Confesso que estou tentando entender essa definição da Ana até agora, no mínimo suspeita.

Aqui é um espaço, mais ou menos democrático - somos duas librianas fascistas e dominar o mundo sempre foi nosso plano secreto, pra falar sobre tudo e sobre nada, pra gritar com o dedo, com o olhar, pra espernear sobre qualquer tema e sobre nenhum tema. E se o melhor que pudermos fazer for ficar em silêncio que seja.

Ninguém sabe muito bem onde tudo isso vai dar. Se vai dar tudo certo quando eu apertar o enter, se não vou ser trolada pela conexão, se o governo da China não vai implicar com a gente, se esse blog vai durar até mês que vem, se não vou ser expulsa amanhã. No fundo a graça pode estar ai. Em não saber o que fazer. Só acho que é nessas horas que a gente ta travado, sem saber pra onde correr, é que a gente deve se lançar. Então que façamos algo. Jogar a inércia de lado e partir pro movimento. O Leonardo, aquele moço Da Vinci, tem uma frase bacana que casa bem com o quase final do texto.

- O movimento é a causa de toda a vida.

Alô, alô, teste 1, 2, 3, teste.

Acho que o canal ta aberto, funcionando. Emissores e receptores estão por aí. Tempo, espaço, dúvidas, preguiça, são tantas as questões possíveis de serem debatidas. O que vem por ai? É só chegar pra ver, esperar pra ver se aparece, ignorar solenemente. Estaremos tentando entender do que tudo isso se trata no fim das contas. Eu acho.


Um amor, uma carreira, uma revolução. Tantas outras coisas que se começam sem saber como acabarão.

Não somos as primeiras, nem seremos as últimas. Sartre já tava ligado nisso.



ps: os porquês devem ter sido usados de maneira completamente impensada, o que era pra ser separado ta junto e o que ta junto ta junto, entenda tudo como licença poética.




                                                                                                                                                               Ana, a lice







quarta-feira, 1 de maio de 2013

Então, taí

Por Ana Luiza Rigueto

Se é para ser pós-moderno, aqui vamos nós. Poucas vezes sigo algum ímpeto: de pensar e realizar, de ter um lampejo e fazer. É raro, é ralo. Mas aqui estou, publicando. Vamos falar, vamos falar de mim, sim, de mim, dos outros, de casos a parte e particulares. Acaso tenha visto meu outro blog declarado, mas não divulgado, o 'Ô ana', perceberá que são coisas completamente diferentes. Mas verá também que eu, 'a' eu, estou lá, de uma forma ou de outra, sempre numa tentativa ou declarando desistência. Ou pedindo trégua. Ou sussurrando. Ou disfarçando. Ou gritando. Tanto faz.

Se é para sermos pós-modernos, que sejamos. Pelo menos aqui. Que esse seja o meu lapso de exibicionismo declarado. Que aqui eu tenha voz, pelo menos a virtual. A mal falada por mim mesma, a desacreditada por mim mesma, a subjulgada por mim mesma. Hoje estou aqui, fazendo o que pensei que não faria, dizendo o que julguei não ser necessário, sendo tão... contraditória. Mas sendo. E por isso abarcando a contradição em plenitude, ou em quase plenitude - porque é virtual, e o que é virtual não é tão pleno assim (e nessa parte dou vazão a 'eu' que pensa que tudo deve ser vivido em particular e com poucos para ser pleno). Mas estou falando por meus pensamentos. E isso quase me basta - quase, porque é virtual.

Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida.

Pode pular pro minuto 2:35 da música, que é a parte que importa.